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Petróleo estatal, adeus Brasil verde
Alexandre Barros
Paralelamente a todas as discussões a respeito de meio ambiente, aquecimento
global, desmatamento, etanol, biomassa, diesel vegetal, Al Gore, ONGs, Raposa
Serra do Sol, generais da ativa e da reserva, pré-sal, faltou uma. Ela é a mais
importante e pode ser uma boa explicação de por que, dificilmente, teremos
carros elétricos ou uso intensivo de energias não baseadas em derivados de
petróleo e/ou etanol no Brasil.
Se você, leitor, não adivinhou ainda, a resposta é simples: o governo brasileiro
(qualquer que seja ele) é o maior interessado em que não se tenha nenhuma outra
fonte de energia eficiente e lucrativa, porque ele é o único produtor de
petróleo do Brasil. E a bancada sucroalcooleira é uma das maiores no Congresso
Nacional.
A tecnologia e a pesquisa vão a reboque do governo, que tem, via Executivo e
Legislativo, interesses constituídos muito poderosos, os quais não fazem a menor
questão de que consumamos menos etanol ou petróleo. Ao contrário, quanto mais
gastarmos desses combustíveis, mais felizes eles ficarão. Cada vez que usarmos
outras energias, eles perderão dinheiro.
Não se iluda, leitor, não pense na Petrobrás perdendo dinheiro, pense no governo
perdendo o dinheiro da Petrobrás.
A Petrobrás desconfia que haja muito petróleo abaixo da camada do pré-sal.
Especula-se, no mercado, que a reserva se estenda muito mais ao longo do
território brasileiro do que o que já foi divulgado até agora (a relação entre o
governo dos EUA ter recriado a 4ª Frota no Atlântico Sul e as reservas ao longo
da costa brasileira está aberta à sua especulação, leitor, aceito idéias e
sugestões).
A Petrobrás é imprivatizável (desculpe, ministro Antonio Magri; obrigado,
acadêmico Cândido Mendes) desde o governo Fernando Henrique. As pessoas se
iludem achando que o Brasil ganha com a Petrobrás estatal. E tanto a Petrobrás
quanto o seu dono, o governo, fazem de tudo para que continuemos a acreditar
nisso. Potoca.
Ganham é os funcionários da Petrobrás e o governo, que usa o dinheiro da empresa
para pagar muitas extravagâncias e idiossincrasias (não estou falando de
atividades corruptas ou ilegais) para as quais ele - governo - não tem dinheiro
no Orçamento público, votado pelo Congresso Nacional. Mas consegue fazer com o
dinheiro da Petrobrás. Como, de resto, o faz também com o dinheiro do Banco do
Brasil, da Caixa Econômica Federal, do BNDES e, quiçá, de outras empresas
estatais menores.
Basta olhar boa parte das campanhas e dos patrocínios a todo tipo de atividades.
Lá - na camisa do atleta, nos créditos do filme ou da peça teatral, nos cartazes
da exposição - estará o logotipo ou o nome de uma das estatais fazendo política
social ou incentivando a cultura, a educação ou o esporte.
Nada contra nenhuma dessas causas, mas isto é apenas para lembrar que, como o
governo distribui dinheiro a rodo por intermédio dessas empresas, para
iniciativas boas e ruins, mais meritórias e menos meritórias, há uma grande
massa de financiados que querem manter a imprivatizabilidade da Petrobrás e de
outras estatais, pois vivem do dinheiro delas.
O governo faz cortesia com o nosso chapéu, financiando campanhas que,
independentemente do mérito ou demérito de cada uma delas, têm uma coisa em
comum: fazem o governo sair melhor na foto (e, de quebra, financia seus amigos).
No caso dos combustíveis alternativos, a situação é mais grave. Existe um
movimento mundial para fazer uma faxina no ar que se respira, que passa, em
parte, pela redução do consumo de petróleo. Em lugares onde o petróleo não é
estatal, governos podem ajudar na faxina incentivando empresas, universidades e
pessoas, ou pelo menos não as desincentivando, a buscar e desenvolver
combustíveis alternativos.
O preço definido livremente pelo mercado é sempre o melhor incentivador ou
desincentivador de atividades. Bastou o petróleo passar de US$ 120 o barril e
montadoras desistiram de carros possantes e fecharam fábricas. Empresas de
aviação testam combustíveis não derivados de petróleo. A freqüência do metrô de
Nova York sobe quase 5% e, lá, os engarrafamentos urbanos se reduzem.
Aqui, o governo tenta comprar a vitória nas eleições municipais segurando o
preço dos derivados de petróleo. Já vimos esse filme.
Nada melhor que o mercado. Hoje há, pelo mundo, todo tipo de pessoas e empresas
tentando mover engenhos com vento, sol, óleo de fritura usado, estrume,
hidrogênio e muitas coisas mais. Onde o petróleo não é estatal, os governos
podem ajudar isso a acontecer ou, pelo menos, podem não atrapalhar.
Aqui, como o governo é o maior interessado no lucro do petróleo, a esperança de
termos pesquisa significativa em energias alternativas é muito pequena. Não
interessa ao governo.
E mais: não duvido que, em sendo descobertas alternativas energéticas em outros
países, seja muito possível que o governo brasileiro não permita sua importação
ou seu uso no nosso país, por uma razão muito simples: o governo ganha com a
poluição.
Bastou o anúncio das reservas do pré-sal para o governo brasileiro entrar num
assanhamento sem par. Há gente no governo querendo meter mais fundo a mão nos
lucros hipotéticos do petróleo.
A Petrobrás não é suficiente, dizem alguns. Querem uma outra estatal, mais
monopolista e mais poderosa, para controlar uma herança cujo valor ainda não se
conhece ao certo, mas se acha ser muito grande. Agora brigam governo e
Petrobrás. Ela, para não perder poder; ele, para eliminar a Petrobrás dessa
perspectiva de se tornar mais poderosa.
Ganhe ela ou ganhe ele, não teremos nada a dizer, porque um monopólio nos tira
todo o poder. Que falta faz um mercado de verdade na energia do Brasil!.
A. Barros es
Ph.D. em Ciência Política (University of Chicago), é pró-reitor do Centro
Universitário Unieuro, em Brasília. Artigo publicado no "Estado de Sao Paolo",
11 julio 2008. Se reproduce en
nuestro sitio únicamente con fines informativos y educativos.
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